quarta-feira, 1 de julho de 2009

Transcrição Fonética

Excepcionalmente este artigo encontra-se escrito em português e não em algarvio, por razões que, espero, compreenderão.

Esta é uma pequena nota explicativa sobre algumas das opções de transcrição fonética que foram feitas neste blog. Em causa estão:
- A questão do "X";
- A não apostrofação;
- O uso da acentuação portuguesa.

Como é sabido, o algarvio não tem qualquer tradição escrita. É um dialecto que se formou, ao longo dos séculos, no contacto oral entre as gentes deste cantinho, no extremo sul do país. Separada do resto do território nacional por três espessas cadeias montanhosas, nesta região se desenvolveu e enraizou uma forma própria de falar, com uma tal especificidade e riqueza vocabular, que podemos falar de um verdadeiro dialecto e não de um mero sotaque. Infelizmente, a partir da segunda metade do século XX, fruto da aculturação de matriz oficial que teve lugar nas cidades maiores e, em geral por todo o litoral, a fala algarvia foi-se, nestas zonas, desvanecendo. No entanto, continua viva, e de uso corrente, um pouco por todo o barrocal e serra, de barlavento a sotavento, em especial entre as pessoas mais idosas.

Não tendo, dizia eu, esta "fala" (que significa também, expressivamente, "língua" em algarvio) tradicionalmente uma versão escrita, foi necessário encontrar uma forma de a literalizar.

Ora, no que ao mote desta nótula diz respeito, a sílaba "es" no início de uma palavra - como em "escola" - na fala algarvia passa ao som "ch", o qual, por simplificação (procurando evitar o excesso de consoantes) represento por "x". Assim, escrever-se-à, por exemplo, "xcola".

Já a opção pela não apostrofação tem a sua explicação numa atitude de emancipação: o algarvio não deve ter vergonha de afirmar aquilo que é. Como tal, as palavras que encurtou (ou suprimiu), bem como as sílabas que decaíram dos seus étimos não têm que ser substituídas por apóstrofes - sinal de preconceito e submissão face à língua portuguesa, da qual o algarvio deriva em grande parte (mas não só!). É preciso deixar claro que o algarvio tem uma dignidade que lhe é própria: não é uma forma inferior ou menos correcta de falar o português, que se deva apoiar nas muletas, que são os apóstrofes, para não cair.

Esta última observação talvez entre um pouco em contradição com a terceira opção de transcrição de que decidi hoje falar. Trata-se do uso da acentuação portuguesa.
A verdade é que preferível seria se o algarvio não precisasse de ser acentuado. Simplesmente a leitura seguiria a convenção de oralidade vigente, da qual é sucedânea. No entanto, esta solução apresenta duas grandes desvantagens: em primeiro lugar,não permitiria a quem não tem contacto oral com o dialecto tomar precepção (ainda que superficial) com a sua riqueza melódica e, em segundo lugar, constituiria um obstáculo à sua preservação, na medida em que tornaria mais difícil reconstituir a sua forma falada a partir do escrito.

Peço desculpa por me ter alongado um pouco nestes esclarecimentos, mas pareceu-me correcto para com o leitor expressar o porquê de algumas escolhas que, não o nego, não serão unânimes e que podem mesmo ser, porventura, algo polémicas.

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